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Voz do Oeste, 24/05/2017

Parceria entre poder público e ONG castra mais de 550 animais por ano em Chapecó

Tanto no centro quanto nos bairros de Chapecó, basta andar alguns metros para se deparar com um cão ou um gato que vive abandonado. Geralmente assustados e desnutridos, estes animais se alimentam de restos de lixo e se hidratam com a água suja que encontram pelo caminho. Muitos deles, um dia, já pertenceram à uma família que adquiriu o animal, mas desistiu de cuidá-lo e de forma irresponsável abandonou-o.

Surge, aí, um dos grandes problemas de saúde pública existente em praticamente todos os municípios do Brasil. Além do sofrimento desses animais, eles são multiplicadores de doenças que podem chegar à população. Sem controle, eles se reproduzem rapidamente e triplicam o problema. Nesse contexto, é imprescindível que as prefeituras criem mecanismos através de políticas públicas para solucionar ou amenizar a situação. Em Chapecó, município com o sétimo maior PIB do Estado (IBGE 2010),o problema vem sendo enfrentado através de uma parceria entre o poder público e o terceiro setor.

Controle populacional de cães e gatos

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que só no Brasil existem mais de 30 milhões de animais abandonados, entre 10 milhões de gatos e 20 milhões de cães (2014). Em cidades de grande porte, como é o caso de Chapecó, para cada cinco habitantes há um cachorro nessa condição. Em cidades menores, a situação não é muito diferente. Em muitos casos o número chega a 1/4 da população humana.Tendo por base o cálculo da OMS, estima-se que Chapecó, com uma população de 209.553 mil habitantes, poderia ter mais de 40 mil animais vagando pelas ruas do município. Porém, não há dados precisos sobre isso.

Parceria em Chapecó

Há dez anos, com o objetivo de castrar animais de rua e oriundos de famílias de baixa renda, um grupo de voluntários criou em Chapecó a ONG Voluntários Amigos dos Bichos. Desde 2011,a entidade sem fins lucrativos incorporou o CEPA (Centro de Esterilização de Pequenos Animais), única política pública do município para controle populacional de animais de rua. Através de uma parceria, a Prefeitura destina à ONG, anualmente, R$ 105 mil para as esterilizações de fêmeas felinas e caninas. Os gastos totais, no entanto, estão orçados em R$ 250 mil por ano. Para fechar a conta, a ONG banca o restante do dinheiro a partir de doações recebidas e com a realização de eventos promocionais como bingos, rifas e brechós. É o que explica a bióloga e mestre em ciências ambientais Jovane Bottin, que nesta reportagem responde pela ONG.

– Desde que a Amigos dos Bichos foi criada, sempre buscamos respostas da Prefeitura para resolver essa questão e nada acontecia. Então, sugerimos essa parceria na qual entramos com parte do trabalho e da arrecadação de recursos e o poder público, por sua vez, cede o espaço para as castrações e mais esse valor. Como não haviam projetos anteriores nesses moldes, tivemos que ir construindo esse trabalho aos poucos. No início, chegamos até a utilizar carro próprio para transportar os animais– conta Jovane.

Hoje, a estrutura do CEPA conta com centro cirúrgico e canil onde os animais permanecem por até 10 dias após o procedimento cirúrgico. Com os itens básicos necessários, o local atende às exigências da vigilância sanitária e do Conselho Regional de Medicina Veterinária de SC. O recurso da Prefeitura é investido para manter o quadro de funcionários, composto por um veterinário, estagiários e o profissional que faz o transporte dos animais. O valor cobre também as despesas com os funcionários que permanecem no CEPA para cuidar dos animais diariamente. À ONG competem os gastos com gasolina, alimentação dos bichos, medicamentos, cobertores, jornais, entre outros.

– Cerca de 90% dos animais atendidos ficam no CEPA até a retirada dos pontos. Se fosse só castrar e devolver para as famílias muitos iriam morrer. Porque estas famílias carentes, no geral, não têm a menor condição de higiene e cuidados no pós operatório. É importante frisar que estamos falando de situações extremas que são justamente as que atendemos – salienta Jovane.

Apesar de não ser o suficiente para atender a demanda, a ajuda do governo municipal mais que triplicou o número de castrações que vinham sendo feitas pela ONG. Antes do CEPA, a Amigos dos Bichos contabilizava 503 procedimentos. Desde que a parceria foi firmada, esse número subiu para 3.712 esterilizações. A grande maioria dos animais chega ao Centro através dos profissionais da ONG que percorrem as zonas mais carentes do município recolhendo as fêmeas não castradas. Além disso, é possível entrar em contato e solicitar o agendamento através da fanpage Voluntários Amigos dos Bichos, desde que o solicitante comprove a renda mensal do grupo familiar que não pode exceder dois salários mínimos nas castrações gratuitas e três salários mínimos nas castrações populares, com preços abaixo da tabela comercial.

– O que sempre reforçamos para as pessoas é que o trabalho do CEPA consiste no controle populacional de cães e gatos. Nós não temos um abrigo para recolher os animais de rua, por exemplo. O que ocorre nas situações em que castramos os animais de rua é tentar doá-los para um tutor, quando não conseguimos, ele é devolvido no local em que foi capturado, entretanto, avisamos a vizinhança para que se mobilize em torno do animal, oferecendo a ele ração e água. Além disso, colocamos uma casinha na calçada para que ele tenha maior comodidade. É o que chamamos de cão comunitário – esclarece a bióloga.

Jovane reforça, ainda, que não é competência da ONG retirar os animais da rua ou atender animais doentes e que há, inclusive, uma recomendação do Ministério Público para que os municípios não recolham esses animais. Nesse sentido, a ONG não divulga o endereço do CEPA já que ocorrem situações em que as pessoas abandonam animais feridos em frente ao Centro e isso gera outro problema aos voluntários, que precisam reorganizar o espaço que é destinado exclusivamente para castrações.

Melhorias no atendimento

A estimativa da ONG Voluntários Amigos dos Bichos aponta que se esses quase 4 mil animais não tivessem sido esterilizados, em dez anos, eles poderiam se procriar e resultar em mais 400 mil animais soltos pelas ruas. Todavia, é possível aumentar o número de castrações se o poder público destinar mais verbas:

– Nosso modelo de controle populacional de animais é bom, inclusive têm cidades vizinhas que vem até nós para conhecer o trabalho e aplicar em suas localidades. Porém, essa limitação financeira nos impede de ampliar todo o projeto. Além disso, poderíamos ter um hospital veterinário para que as situações de emergência também pudessem ser contempladas, já que muitas vezes temos animais atropelados nas ruas que ficam à mercê da boa vontade de alguém em ajudá-los; as famílias de baixa renda também ficam desassistidas por não ter como pagar uma consulta particular quando seu animal adoece. Para isso, o município poderia firmar convênios com as universidades locais – sugere.

Parceria entre poder público e ONG castra mais de 550 animais por ano em Chapecó

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